Em setembro, muitos cartórios e serventias costumam publicar mensagens como “você não está sozinho”, “pedir ajuda é um ato de coragem” e “cuide da sua saúde mental”.
São mensagens importantes. Mas, dentro do ambiente de trabalho, existe uma pergunta que deveria vir antes delas:
O que acontece quando alguém da própria equipe diz que não está bem?
No cartório, essa pergunta merece atenção. Uma serventia pode aderir ao Setembro Amarelo nas redes sociais e, ainda assim, manter uma rotina em que admitir sobrecarga é interpretado como falta de comprometimento, dificuldade profissional ou incapacidade de “dar conta”.
É justamente nessa distância entre o discurso e a prática que o Setembro Amarelo no cartório pode provocar uma reflexão diferente.
A campanha termina no post ou chega à rotina da serventia?
Imagine algumas situações.
A serventia publica que é importante pedir ajuda. Na mesma semana, um colaborador diz que não está conseguindo administrar o volume de trabalho e escuta:
“Está puxado para todo mundo.”
O cartório fala sobre equilíbrio, mas responder mensagens depois do expediente virou uma demonstração informal de comprometimento.
A equipe é incentivada a falar quando algo não vai bem, mas quem admite uma dificuldade começa a ser visto como alguém que “não aguenta pressão”.
Nenhuma dessas situações exige necessariamente uma intenção ruim por parte da liderança. Muitas vezes, são comportamentos que foram incorporados à cultura da serventia e deixaram de ser questionados.
É justamente por isso que uma campanha como o Setembro Amarelo pode ser útil: não apenas para falar sobre saúde mental, mas para observar se o comportamento cotidiano da serventia é coerente com aquilo que ela comunica.
Pedir ajuda no trabalho não é pedir que o gestor resolva a vida pessoal
Existe uma distinção importante.
Criar um ambiente em que alguém possa comunicar uma dificuldade não significa transformar titulares, interinos ou gestores em terapeutas.
Também não significa que a serventia tenha responsabilidade por resolver todos os problemas pessoais de seus colaboradores.
O papel da liderança está relacionado àquilo que pertence ao ambiente de trabalho.
Se uma pessoa comunica que não está conseguindo executar adequadamente determinada atividade, por exemplo, a primeira resposta não precisa ser uma investigação sobre sua vida pessoal.
Pode ser uma análise objetiva:
- o volume de trabalho está compatível com a capacidade disponível?
- as responsabilidades estão claras?
- existe alguma dificuldade técnica?
- houve treinamento suficiente?
- existe uma situação excepcional aumentando a demanda?
- há algum obstáculo operacional que precisa ser corrigido?
Pode haver uma questão pessoal. Pode haver uma questão profissional. E as duas coisas também podem coexistir.
A liderança não precisa diagnosticar a origem do sofrimento para ouvir o que está sendo comunicado e avaliar aquilo sobre o qual efetivamente pode agir. Quando a sobrecarga se torna persistente, também é importante conhecer os sinais de burnout e as formas de prevenção no ambiente cartorário.
Quando “dar conta” vira parte da cultura
Em ambientes de muita responsabilidade, algumas atitudes podem começar a ser valorizadas sem que ninguém tenha decidido formalmente que deveriam ser.
Ficar depois do horário.
Responder durante o descanso.
Evitar pedir ajuda.
Assumir mais uma tarefa mesmo quando a capacidade já chegou ao limite.
Não demonstrar dificuldade.
Aos poucos, essas atitudes podem ser confundidas com comprometimento.
E surge um problema: quem percebe que não está conseguindo acompanhar pode concluir que falar é mais arriscado do que permanecer em silêncio.
Isso não significa que toda carga elevada de trabalho seja inadequada. A atividade extrajudicial possui períodos de maior movimento, prazos, responsabilidades e situações que realmente exigem respostas rápidas.
Também não significa retirar do colaborador a responsabilidade por suas atribuições.
A questão é outra: uma equipe saudável precisa conseguir diferenciar responsabilidade profissional de disponibilidade ilimitada.
O erro também pode ser um sinal de que algo precisa ser observado
Considere uma colaboradora que normalmente executa suas atividades com segurança, mas começa a cometer erros recorrentes.
A primeira reação pode ser:
“Você precisa prestar mais atenção.”
Talvez precise.
Mas essa não precisa ser a única pergunta.
O comportamento mudou recentemente? Ela assumiu novas atividades? Está cobrindo outra pessoa? Houve alteração de procedimento? As interrupções aumentaram? Existe uma dificuldade que já havia sido comunicada?
Investigar o contexto não elimina a responsabilidade individual pelo trabalho realizado.
Ao contrário: permite compreender melhor o problema antes de decidir como corrigi-lo.
Em uma serventia, na qual determinados atos exigem atenção, conferência e responsabilidade, identificar a origem de falhas recorrentes também é uma questão de gestão.
O jeito como a liderança responde importa
Nem sempre será possível reduzir uma demanda ou resolver imediatamente aquilo que está causando dificuldade.
Mesmo assim, existe diferença entre respostas como:
“Todo mundo está sobrecarregado.”
e:
“Entendi. Vamos identificar exatamente onde está a dificuldade e verificar o que é possível fazer.”
A segunda resposta não promete uma solução.
Ela apenas demonstra que aquilo que foi comunicado será considerado.
Esse detalhe importa porque as pessoas observam não apenas o que a serventia diz, mas o que acontece com quem decide falar.
Se toda manifestação de dificuldade termina em julgamento, comparação ou cobrança imediata, a tendência é que os próximos problemas permaneçam escondidos por mais tempo.
Escutar também exige limites
Acolhimento não significa ultrapassar limites profissionais.
Gestores e colegas não devem tentar diagnosticar transtornos, pressionar alguém a revelar questões pessoais ou assumir funções que pertencem a profissionais habilitados.
Também é necessário ter cuidado com a exposição.
Uma conversa individual sobre uma dificuldade não deve virar assunto informal entre colegas ou exemplo utilizado posteriormente diante da equipe.
Se houver necessidade de apoio especializado, a orientação adequada é incentivar a busca por profissionais e serviços capacitados.
Em emergências ou risco imediato, devem ser procurados os serviços de urgência e emergência.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Antes da publicação de Setembro Amarelo, faça um teste simples
Antes de publicar a próxima mensagem sobre saúde mental, titulares e gestores podem fazer um exercício.
Pense em um colaborador dizendo:
“Eu não estou conseguindo.”
Agora responda mentalmente:
Qual seria a primeira reação da nossa liderança?
Seria tentar entender o que aconteceu?
Seria procurar imediatamente um culpado?
Seria comparar aquela pessoa com os demais?
Seria dizer que todos estão passando pela mesma situação?
Seria interpretar a fala como falta de comprometimento?
Ou haveria espaço para compreender o problema antes de decidir o que fazer?
Essa resposta diz mais sobre a cultura da serventia do que qualquer publicação de Setembro Amarelo.
Saúde mental no trabalho não significa ausência de cobrança
Existe ainda um cuidado importante: falar sobre acolhimento não significa defender um ambiente sem responsabilidade, cobrança ou avaliação de desempenho.
Uma serventia precisa de procedimentos corretos, cumprimento de prazos, responsabilidade pelos atos praticados e qualidade no atendimento ao cidadão.
Problemas precisam ser corrigidos.
Erros precisam ser tratados.
Responsabilidades precisam estar claras.
A diferença está em compreender que cobrar resultado e ouvir uma dificuldade não são atitudes incompatíveis.
Uma liderança pode manter expectativas profissionais e, ao mesmo tempo, permitir que um colaborador comunique que existe um problema antes que ele se torne maior.
Setembro termina. A resposta da liderança continua.
O Setembro Amarelo pode colocar a saúde mental em evidência durante algumas semanas. Mas a cultura de um cartório é construída nos outros meses do ano.
Ela aparece quando alguém comete um erro.
Quando uma pessoa pede ajuda.
Quando um colaborador admite que não sabe realizar determinada atividade.
Quando alguém diz que está sobrecarregado.
Quando surge um problema que ninguém havia previsto.
Nesses momentos, a equipe aprende quais comportamentos são realmente permitidos naquele ambiente.
Por isso, talvez a pergunta mais importante deste Setembro Amarelo não seja simplesmente “nossa serventia fala sobre saúde mental?”
A pergunta pode ser outra:
Se alguém da nossa equipe disser amanhã “eu não estou bem e preciso de ajuda”, o que acontecerá depois?
A resposta não está na campanha.
Está na cultura que a serventia constrói todos os dias.
Escrito por: Isabella Flores